Sucata tecnológica vira ‘jóia’ nas mãos de artista brasileira

Publicado: 5 de junho de 2008 em E-commerce

JULIANA CARPANEZ Do G1, em São Paulo

Naná Hayne cria telas e bijuterias — as ‘tecnojóias — a partir de eletrônicos usados.
Ela chama atenção para lixo eletrônico, que soma 50 milhões de toneladas ao ano.

Arquivo Pessoal
Arquivo Pessoal
Naná Hayne, 50, usa lixo tecnológico como matéria-prima para suas obras. (Foto: Arquivo Pessoal )

Foi durante um acesso de fúria causado pela tecnologia, há cerca de cinco anos, que Naná Hayne, 50, passou a ver peças de computador como matéria prima para seus trabalhos artísticos. Numa noite quando o PC e a impressora insistiram em não funcionar, a artista plástica puxou um cabo com tanta força que, perto de arrebentar, ele revelou tons coloridos. Já conformada com a falha técnica e movida pela curiosidade, Naná descascou o cabo com um estilete e depois partiu para a exploração do interior do PC. “Já viu uma placa-mãe? Parece Brasília vista de cima”, compara.

A partir daí ela adotou componentes de equipamentos tecnológicos, sempre usados, em suas obras e também em bijuterias – as chamadas “tecnojóias”. Nesse processo de criação, vale apostar em fios coloridos para dar forma à mulher da tela e preencher seus lábios com um pedaço de placa-mãe vermelha (sim, agora a opção de tons é maior). Se essa mesma peça ainda agradar no tom verde, ela pode servir de matéria-prima para um par de brincos ou pingente de colar. Dá também para usar teclas, sejam elas de PCs ou de celulares, na montagem de anéis.

 

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Fios coloridos dão forma à mulher da tela; lábios são preenchidos com placa-mãe vermelha. (Foto: Arquivo Pessoal )

Essas peças de computador, muitas das quais a artista plástica já conhece por nome, são todas doadas por técnicos em informática. “Quando eles têm algo diferente, guardam e me dão.” Até agora, contando somente as bijuterias, foram mais de 500 peças — nenhuma repetida, segundo Naná. Os preços das “tecnojóias” variam de R$ 10 a R$ 60, e as telas têm valor diferenciado.

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Quando a artista viu uma placa-mãe, acho que componente se parecia com a cidade de Brasília vista de cima. (Foto: Arquivo Pessoal )

 Lixo eletrônico

Naná se sustenta com a venda de suas obras, mas afirma que o foco do trabalho não está somente na comercialização das peças. Ela também quer chamar atenção para a questão do lixo eletrônico que, segundo a organização não-governamental Greenpeace, soma 50 milhões de toneladas a cada ano.

“Temos de pensar na reutilização desses componentes, tão pouco duráveis. Os fabricantes não podem apenas colocar um produto no mercado: devem pensar em sua manutenção e destino, depois de descartados.”

Para divulgar as possibilidades de reutilização do lixo eletrônico, ela realiza palestras para arquitetos, artistas, artesãos, designers, decoradores, engenheiros e profissionais das mais diversas áreas. Além disso, procura parcerias com empresas para colocar em prática projetos de reutilização da sucata criada na era do iPod. “Nas feiras de tecnologia, os estandes poderiam ser decorados com lixo eletrônico. Qualquer companhia que pensasse nesse tipo de ação atrairia muito mais interesse e conseguiria mais divulgação”, exemplifica.

Arquivo Pessoal
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Peças de computador e do teclado dão origem a anéis. (Foto: Arquivo Pessoal )

Fã declarada de tecnologia — até mesmo quando as peças do computador ainda estão em funcionamento –, ela começou a usar ferramentas de comunicação on-line em “mil novecentos e guaraná com rolha”, quando conheceu o serviço videotexto, também chamado de “avô do chat” por Naná. “Fiquei alucinada com as possibilidades e gastava fortunas com a Telesp”, conta.

 

Hoje ela tem blog, Flickr, Orkut e Twitter, sendo este último serviço o principal alvo de sua irritação na internet: atualmente ele tem ficado fora do ar com bastante freqüência. Quem sabe daí surja outra inspiração artística, como aconteceu na noite em que Naná puxou o cabo da impressora?

 

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