Grupo usa a internet para doar e receber objetos

Publicado: 29 de julho de 2008 em E-commerce

OCIMARA BALMANT
da Revista da Folha

Marina Braga Gentile nasceu há 17 dias no Hospital Metropolitano, na Pompéia. Para enfrentar o inverno paulistano, a menina, de 50 cm e 4 kg, saiu da maternidade vestida com casaquinho e sapatinhos de lã. O modelito, novinho em folha, foi presente de desconhecido, via internet. E, atenção, não foi caridade!

A mãe de Marina, a psicóloga Rosângela Braga, 36, participa da Freecycle (www.freecycle.org), rede que reúne internautas doadores e receptores de tudo o que se imagina. Pode ser livro, gato, equipamento odontológico e até piano.

Beatriz Toledo/Folha Imagem
Rosângela Braga, 36, posa com a filha recém-nascida, Marina, com 17 dias
Rosângela Braga, 36, posa com a filha recém-nascida, Marina, com 17 dias

“Arrumei todas as roupinhas e vi que faltavam peças de lã. Não pensei duas vezes. Postei o pedido no site e umas dez pessoas se propuseram”, conta a psicóloga, que, pela primeira vez, é receptora.

Desde que soube da iniciativa, há cerca de um ano, Rosângela já doou computador, disquetes, sapatos e livros. “Vi que um americano doou até a casa. Quis participar também e comecei pelo que estava sobrando no meu apartamento. Agora, chegou a minha vez de pedir. Recebi mais do que esperava e muito rapidamente”, relata.

No mundo todo, a Freecycle reúne cinco milhões de pessoas em mais de 80 países. Mas a idéia do que se chama “economia da doação” surgiu despretensiosa, em 2003, no Arizona, EUA. Deron Beal, o fundador, trabalhava para um grupo ambientalista que buscava manter bens utilizáveis fora de aterros sanitários. Um dia, a instituição quis doar materiais de escritório de que não precisava mais, e Beal teve dificuldade em encontrar, com rapidez, alguém que precisasse.

Foi quando percebeu que, se pudesse postar a oferta em uma lista de e-mail, economizaria tempo. Nascia a organização que, hoje, recebe 30 mil novos membros a cada semana. O esquema de funcionamento é simples: o usuário entra no site e se cadastra no grupo da cidade em que mora, para facilitar a troca de informações e a entrega dos objetos. Depois, é só postar os pedidos e doações.

No Brasil, a rede ainda é pequena. Além do grupo de São Paulo, o maior, com 650 membros e pouco mais de dois anos de existência, há apenas outros sete no país. O antropólogo Guilherme Falleiros, 31, é um dos moderadores da lista paulistana. Assim que descobriu o grupo americano, entrou em contato com os organizadores e recebeu permissão para abrir uma “filial” na capital paulista, a primeira do Brasil.

“Me interessei porque a Freecycle possibilita uma solidariedade que não se baseia na caridade, que pressupõe uma desigualdade. Aqui não: doadores e recebedores se confundem, se alternam. E sem que haja troca”, diz.

Há um mês, Guilherme saiu de sua casa em Santo André e foi buscar um gatinho que estava sendo doado na Vila Prudente, na zona leste. Foi sua primeira participação. A atividade do moderador se resume a aprovar ou não as mensagens que são enviadas para a lista. Só são censuradas ofertas que citam valores ou que propõem troca. Fora isso, não há registro formal dos itens que são doados ou aceitos e nenhuma barreira à participação de qualquer pessoa.

Sem explicações

Foi exatamente essa “falta de questionamento” que motivou Rosângela. Ela diz que, assim que pediu as roupinhas para o seu bebê, as únicas perguntas que recebeu, também por e-mail, foram quanto ao sexo da criança e a época do nascimento, além dos votos de “boa sorte no parto”. “Ninguém me perguntou por que eu queria os casaquinhos, como é minha vida ou com o que trabalho”, conta.

Quem participa diz que as indagações são mesmo dispensáveis, já que a idéia não é fazer caridade. “O que faço é por ideologia, pela proposta do não-desperdício. Isso é o que importa”, diz o advogado André Graça, 30, membro há seis meses. Há três semanas, ele doou uma lavadora de alta pressão. Assim que postou a oferta, oito pessoas se manifestaram.

O receptor foi um morador de Osasco, que André nem chegou a conhecer. “Agendamos a data, e ele veio buscar. Eu não estava. Foi a diarista que entregou.” É o segundo objeto que o advogado doa. O primeiro foi um armário.

O designer Maurício de Sousa, 32, também participa pela segunda vez. Mas ele ainda não doou nada. Só recebeu. Assim que se cadastrou, há um mês, ele viu que alguém oferecia um hub (equipamento de informática). Respondeu rapidamente o e-mail, saiu de sua casa em São Bernardo do Campo e foi até Pinheiros buscar a peça.

Na última semana, o site possibilitou que Maurício realizasse o antigo sonho de montar um curso de fotografia. Ele pediu equipamentos fotográficos antigos ou com defeitos, coisa que, com a era digital, muita gente deixou de usar. Duas pessoas responderam à solicitação, e o designer já conseguiu angariar quatro câmeras e um tripé.

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