Sites revelam testamento on-line após morte de usuário

Publicado: 5 de agosto de 2008 em E-commerce

Receber o e-mail de algum conhecido com a saudação “Oi, estou morto” pode parecer piada de mau gosto. Mas o envio de mensagens de quem passou desta para a melhor vem sendo o motor de diversas empresas em expansão no ilimitado universo da internet.

Uma das mais bem-sucedidas nesse nicho, a página AssetLock.net (http://www.assetlock.net/, que significa algo como “cofre de valores”, em tradução livre) foi batizada originalmente, há dois anos, como YouDeparted.com (“você morreu”). Ganhou o novo nome, em março deste ano, “porque o atual descreve melhor o site”, explica à Revista Collin Harris, 52, criador da página.

Sob o lema “Preservando o seu legado”, o site passou dos 3.000 usuários, no ano passado, para os atuais “mais de 10 mil”, segundo o programador norte-americano de Nevada. “Usar um serviço como esse não é diferente de fazer um testamento”, diz. “Há uma série de informações que um testamento não traz, e o que possibilitamos é deixar esse tipo de dado acessível por meio do site.”

Harris, que na página publica fotos próprias e de sua família como motivação para outros interessados, usa o próprio site para guardar senhas ou combinações. “Existem muitas coisas na sua vida que só você sabe como fazer, então, se você morre de repente, ninguém mais pode executá-las se não houver orientações a respeito.”

O custo de uso da AssetLock varia de US$ 9,95 por ano –o que dá direito a estocar 20 documentos em um total de 20 MB– a US$ 79,95 anuais, quantia que garante o armazenamento de um número ilimitado de documentos até 5 GB.

Além de assinantes da terra natal, o AssetLock.net é freqüentado especialmente por britânicos e espanhóis. Na América Latina, os argentinos são os que mais aderiram ao site. “Você abre uma conta e coloca uma série de dados que nem mesmo eu, que sou o programador, posso ver. É um serviço prático.”

Por se tratar de um negócio assentado sobre a administração de informações essencialmente confidenciais –senhas, detalhes íntimos, endereços–, o ponto-chave é a confiabilidade dos sistemas de segurança. O AssetLock.net e seus concorrentes utilizam mensagens criptografadas (de modo que ninguém possa lê-las sem ter a devida senha para decodificá-las). O sistema impossibilitaria, segundo enfatizam todos os sites, inclusive que suas equipes possam ter acesso ao conteúdo postado pelos usuários.

Últimos desejos

Do outro lado da fronteira, em Victoria, no Canadá, o PrivateMatters.com (“assuntos privados”, http://www.privatematters.com) também se propõe a informar parentes e amigos de quem já não pode mais se comunicar sobre os últimos desejos e lembretes dos mais diversos matizes. Com o slogan “Não deixe nada para o acaso”, ocupa-se de, entre outros, guardar para seus usuários informações triviais, mas essenciais para a vida prática, como um passo-a-passo para acionar sistemas de segurança domésticos, por exemplo.

O site, lançado em 2003, também oferece a construção de um memorial on-line, com o acréscimo de mensagens, homenagens, fotos e mecanismos que possibilitam arrecadar fundos em nome de alguém, postumamente, ou em memória do usuário quando este morrer. Dependendo do pacote escolhido, o plano de adesão ao PrivateMatters vai desde uma parcela única de US$ 19,99 a um pagamento de US$ 69,99.

“Temos cerca de 3.870 consumidores”, diz Martin Hubbard, criador da página. “Não temos acesso, obviamente, ao que nossos clientes determinam em seus arquivos, mas muita gente recorre ao serviço para deixar instruções sobre como cuidar de suas mascotes e distribuir seus pertences”, conta o empresário de 49 anos sobre os usos mais comuns nas consultas de interessados.

Os adeptos do PrivateMatters.com provêm majoritariamente do Canadá e dos EUA, mas Hubbard afirma que outros 32 países marcam presença entre sua clientela. “Utilizar esse serviço me deixa enormemente tranqüilo, isso vai garantir que minha família tenha diretrizes e algum tipo de consolo quando eu morrer”, considera o norte-americano David Lang, 57, um dos usuários do site.

Todos os sites se dedicam basicamente à mesma atividade: estocar mensagens de seus clientes, com fotos e/ou vídeos, a serem enviados “post mortem”, e a maioria oferece a possibilidade de que se prove o serviço gratuitamente, por períodos que vão de 30 dias a um ano.

Para os idealizadores do irlandês Postexpression.com (“expressão póstuma”, https://www.postexpression.com), “a morte termina uma vida, não um relacionamento”, segundo o mote da página, que cobra do usuário anuidade de 19 euros. É mais ousado graficamente e menos formal que outros desse gênero: conta com um blog, onde são colocadas mensagens de pessoas que desejaram ter seus escritos divulgados postumamente, e é mantido por uma equipe espalhada por diversas partes do mundo.

Pensamento vivo

Por meio da inglesa Letterfrombeyond (“carta do além”, http://www.letterfrombeyond.com), até 30 e-mails, 30 fotos e cinco envios de cartas pelo correio tradicional podem ser efetuados ao custo de 8,99 libras anuais. Com a divisa “Mantendo seus pensamentos e memórias vivos”, o serviço básico do site de Durham sai a 4,99 libras para que sejam despachados dez e-mails, dez fotos e uma carta.

Os sites funcionam, em geral, a partir de três procedimentos: primeiro, o internauta se inscreve na página e opta pelo tipo de serviço que deseja utilizar. Em seguida, indica quem serão os responsáveis por notificar o site, em caso de sua morte, e para quais endereços de e-mail suas mensagens devem ser enviadas. Isso feito, pode passar a alimentar sua conta com toda sorte de recomendações, reminiscências e comentários.

Também produzido por uma empresa britânica e com o propósito de “preparar hoje o amanhã”, o site Mylastemail.com (http://www.mylastemail.com), de Birmingham, auxilia seus consumidores a passar para a posteridade com um memorial on-line –em que são guardados vídeos, fotos e escritos para serem acessados por familiares e amigos do internauta postumamente.

Ano a ano, se o usuário deixa de pagar a taxa de renovação para uso do site, as empresas geralmente enviam e-mails relembrando-o do iminente término do serviço. Se o internauta morre, cabe ao(s) amigo(s) designado(s) anteriormente por ele avisar os funcionários do site de que as informações ali estocadas devem, por fim, ser conhecidas.

Antes disso, as equipes de algumas das páginas se certificam de que o silêncio dos clientes não deriva de uma distração. Tentam contato telefônico com o usuário e exigem dos arautos da má notícia que apresentem a certidão de óbito do cliente antes que comecem a ser enviadas as mensagens guardadas.

Fonte: Folha Online

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