Crise dos grampos impulsiona venda de aparelhos para fazer e bloquear escutas

Publicado: 7 de setembro de 2008 em E-commerce

Fabricantes e distribuidores oferecem equipamentos pela internet. Celular antigrampo ‘embaralha’ dados de voz e impede escuta.

Para além das altas esferas do poder, produtos que prometem fazer grampos telefônicos e equipamentos contra a espionagem estão cada vez mais populares. 

A oferta de parafernálias para bisbilhotar ou para evitar ser bisbilhotado é grande e está disponível para todos os bolsos, gostos e necessidades.

Segundo empresas ouvidas pelo G1, as recentes denúncias de “arapongagem” envolvendo autoridades fazem as vendas crescerem. 

Na semana passada, denúncias de que o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, foi grampeado fizeram com que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afastasse temporariamente a cúpula da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

Pedido on-line

A lacuna na legislação – que não proíbe expressamente a comercialização de equipamentos que fazem escutas – deixa o território livre. As empresas que vendem equipamentos para grampos se respaldam na brecha existente. Afirmam que apenas vendem produtos e que não se responsabilizam pelo seu uso. 

O acesso é fácil. Na internet, por exemplo, é possível encontrar microtransmissores do tamanho de uma moeda, canetas com microfone e transmissão por rádio e grampos telefônicos que podem ser instalados na tomada do aparelho. Os produtos, amadores, não chegam a custar R$ 50. Basta fazer o pedido on-line e esperar em casa.

Uma das fábricas de equipamentos para grampo, em Minas Gerais, quase não dá conta da demanda. “Trabalhamos aqui sem estoque. Tudo o que a gente produz está vendendo”, diz o proprietário, um técnico em mecatrônica que começou a produzir os equipamentos por “hobby”, chegou a exportar para a Argentina e agora vende, por mês, “algumas centenas” de produtos para escuta ambiental (que são escondidos em algum lugar) para todo o Brasil.

O analista de sistemas Vicente Levi Guedes, proprietário de um site de produtos eletrônicos, conta que chega a vender, mensalmente, cerca de 200 equipamentos para escuta. Ele diz que 40% das encomendas são de Brasília. “Não sei se é coincidência ou não”, brinca.

Celular antigrampo

Na outra ponta, também é grande a oferta de produtos e serviços para quem quer evitar ser alvo de escutas. Os celulares antigrampo são a grande vedete do mercado. A tecnologia, no entanto, não está disponível para todos.

A “blindagem” no telefone celular é feita com a instalação de um software. O serviço chega a custar até cerca de R$ 3 mil por aparelho, segundo empresas ouvidas pelo G1. Mas há um detalhe: para funcionar, é preciso ter dois celulares com o software instalado, ou seja, o custo é em dobro.

O programa criptografa a voz, ou seja, “embaralha” os dados e faz com que eles não possam ser compreendidos por um espião que esteja escutando a conversa. No caso de um grampo, o que se ouve é apenas um ruído. A conversa só acontece porque os dois aparelhos emitem chaves que só são identificadas entre si. Essas chaves “decifram” o embaralhamento e jogam a voz, novamente, no alto falante do aparelho.

“As pessoas que detêm informações privilegiadas, importantes, acabam tendo que se proteger de alguma maneira. E a única maneira hoje conhecida, além de não falar, como disse nosso ministro, seria usar a criptografia”, diz Marcelo Copeliovich, diretor da Gold Lock Brasil, empresa que instala o software antigrampo. Segundo ele, a procura aumentou cerca de 30% em relação ao ano passado.

“Quando aparece o tema grampo telefônico, a procura aumenta”, conta Edison Santos, diretor comercial da CryptoCell, empresa que vende o software que criptografa a comunicação pelo celular e estima fechar o ano com um aumento de 60% nas vendas em relação a 2007.

Segundo ele, em busca do filão, duas operadoras já procuraram a empresa para analisar a viabilidade de oferecer o antigrampo como produto para o cliente. Há dois meses, a empresa resolveu baixar o valor do aparelho, que custava R$ 2,7 mil, para R$ 1.870.

Empresa ‘aluga’

Para quem ainda considera o valor alto ou quer utilizar o antigrampo por um determinado período, há outras opções, como o “aluguel” do celular.

Na Secvoice, o cliente paga R$ 200 por mês para utilizar o software e pode interromper o serviço quando quiser. Ao contrário de outras empresas, nesse caso a tecnologia não é importada de países como Israel, origem de muitos desses programas, mas produzida no Brasil.

O proprietário da empresa e programador César Bremer Pinheiro diz que a quantidade de produtos para a bisbilhotice gerou uma “indústria do grampo”. Há seis anos, ele percebeu a tendência quando procurava nichos ainda pouco explorados em tecnologia.

“Com a entrada dos primeiros palm tops, vi que poderia fazer criptografia de voz em equipamentos mais baratos”, conta. Com o lançamento do novo produto, que utiliza tecnologia 3G, viu a procura triplicar no último mês. 

Central antigrampo

Na Illix Tecnologia, o celular antigrampo é responsável por 40% das vendas. Adriana Gobbo, diretora da empresa, diz que o noticiário influencia a procura. “No caso Kroll, há uns cinco anos, teve um pico maior, cresceu bastante, mas depois normalizou.”

Para quem também está preocupado com o telefone fixo, a empresa oferece uma “central antigrampo”. Por R$ 700 por mês, o serviço não impede que o celular seja grampeado, mas promete detectar uma escuta.

O método consiste em monitorar a freqüência da linha. “Se a sua linha tiver algum problema, pode ser até uma pomba, um rato que roeu o fio da linha ou um grampo, vai haver uma variação de freqüência, o equipamento acusa isso e aí um técnico vai no local para verificar o que aconteceu”, explica. 

Pessoa física não compra

Além de o custo limitar as vendas, há outro fator impeditivo para uma popularização ainda maior do celular antigrampo.

Marcelo Copeliovich conta que o aparelho só é vendido para empresas e, antes de a venda se concretizar, é feita uma espécie de checagem do comprador. “A gente tenta fazer uma prévia na venda, verificar a empresa que está comprando, a situação cadastral”, diz.

O objetivo é evitar que o celular antigrampo seja usado por criminosos ou por pessoas que possam ser alvo de ordens judiciais para escutas telefônicas, o que poderia gerar um impasse entre a operadora, que não irá conseguir obter os diálogos, a Justiça e a empresa que vendeu o software.

Pinheiro também afirma que vende o software apenas para empresas e para órgãos governamentais. Segundo ele, para fazer uma filtragem e evitar que o produto caia “na mão de qualquer pessoa”.

“Não é interesse nosso o risco de ser usado por criminosos, traficantes de drogas. Se é uma pessoa jurídica, fica mais fácil tratar com ela, tem um endereço. Para uma pessoa física, teria que levantar a ficha cadastral na polícia e aí começa a entrar em uma burocracia”, diz.

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